Um Lugar para a Alma
Branco brilhante, vermelho Pompéia, colunas, cúpulas e jardins secretos se exibem nas fascinantes villas de Capri, onde convidados famosos relaxam contemplando as estarrecedoras águas de um mar azul sobre o brilho extremo do Sol. Em nome da poesia ou da exaltada preguiça, as villas históricas de Capri invocam a vida, o júbilo, histórias de amor e o sofrimento dos grandes dos tempos de Roma até hoje. Augustus foi um dos visitantes assíduos da ilha, onde Tiberius passou os últimos 10 anos de sua vida.
Villa Jovis, uma das 12 villas construídas pelo imperador Tiberius e ao mesmo tempo uma fortaleza e um palácio, foi construída explorando as curvas naturais do terreno para dar aos visitantes um sentido de superioridade e inacessibilidade, em 7.000 metros quadrados de uma encosta situada a 354 metros acima do nível do mar que oferece aos olhos do visitante que passeia pela loggia de 90 metros uma vista do golfo de Nápoles de tirar o fôlego.
Também em Capri, o oásis de prazeres onde tudo é lícito, o sonho do esteta refinado –o rico Barão Jaques Fersen D’Adelsward, (1880/1923, relacionado pelo lado paterno a Axel von Fersen, um conde que teve um relacionamento com Marie Antoinette)– criou a Villa Lysis. A villa foi construída também em um cenário fascinante do monte Tiberius, e “para viver na beleza”. Essa foi a tentativa do Barão de afirmar-se do tratamento duro que recebeu em Paris devido ao escândalo de ter sido preso no mesmo dia de seu noivado com a filha do Visconde de Maupeou e atirado numa cela acusado de seduzir homens jovens.
Enquanto sua casa era construída, ele foi ao Ceilão com alguns amigos onde descobriu os prazeres sensuais do ópio. Em seu retorno, o homem que desejava viver na beleza total conheceu um jovem trabalhador chamado Nino Cesarini nas ruas de Roma. O Barão facilmente ganhou o favorecimento da família do efebo, que o acompanhou a Capri onde receberia educação e ficaria com ele. Nino se tornou seu assistente pessoal e amante fiel. O jovem trabalhador de Roma se converteu no objeto de seu desejo, a estátua viva do templo que ele construía, o companheiro de uma longa e feliz história de amor. Ele viveu de fato a história de amor na completa promiscuidade da ilha.
Fersen completou seu “santuário” em honra da adolescência do amor, construído exatamente na encosta abaixo da Villa Jovis, a antiga residência de Tiberius. O esplêndido prédio neo-clássico foi chamado de Villa Lysis em honra ao jovem amigo de Sócrates mencionado por Platão no Diálogo da Amizade (Lysis). Um monumento em nome do amor e seu ego ferido. ”Se eu tivesse de construir uma cidade ou simplesmente uma villa, eu o faria para hospedar poetas, especialmente os maudit.” Dentro da villa, ele construiu um pequeno templo pagão com uma estátua de Narciso, para a qual Nino pousou como modelo. No porão, Jaques construiu a famosa “Sala Chinesa” onde guardava a mais famosa coleção de cachimbos de ópio compradas do Imperador da China.
De 1905 a 1914, o dono da Villa Lysis viveu uma vida de total prazer, um poeta com grande ambição e poucas habilidades, invocando aos Céus que lhe concedessem genialidade e glória, mesmo sabendo que nunca satisfariam seu pedido. Somente em sua sala chinesa o sonho se convertia em realidade. Após outro escândalo–em Capri, desta vez na Grotto Mitra, o deus sem uma mulher–foi reproduzido um sacrifício de brincadeira onde Nino atuou o papel de vítima. Aconteceu que tal desempenho chocante foi testemunhado ao amanhecer pela filha do conselheiro que cortava a grama, o que produziu muitos rumores descrevendo a representação de Tiberius das piores orgias e licenciosidade, obrigando o Barão a deixar a ilha por um tempo enquanto o escândalo se desfazia antes de crescer.
Logo veio a Primeira Guerra Mundial, e, ao tentar retornar a Capri, o ópio se convertera no suporte da vida de Jaques. Um sargento da 19º infantaria, após um exame médico, rejeitou seu alistamento por “toxicomania” e o obrigou a fechar a Villa Lysis e se internar no hospital internacional no bairro Vomero (Nápoles) onde teve de experimentar o horror da desintoxicação, enquanto Nino foi mandado para o fronte. Considerado incurável, retornou a Capri onde recomeçou a fumar ópio, mas, desta vez, mesclado a cocaína. Sua saúde fraca não o impediu de publicar uma nova série de poemas sobre o ópio que ele mesmo financiou. Ao perder o insubstituível amor de longa data de seu leal Nino, quem retornou da guerra com uma cruz de duplo mérito, e tendo notado que ele o havia rapidamente substituído por um amor jovem, sentiu que a morte estava próxima e lembrou do pensamento de seu amigo Oscar Wilde, “Devemos partir antes que o sonho termine”.
Uma noite, na companhia de Nino e do jovem Manfredi –os três vestidos em sarongues tailandeses de seda cor de rosa– ele foi sozinho para um canto da sala chinesa, dissolveu 5 gramas de cocaína em sua bebida e bebeu tudo de um gole. Antes de morrer, ele teve tempo de passar para as mãos de Manfredi a caixa dourada contendo o pó.
Em novembro de 1923, Nino e Manfredi encabeçaram seu cortejo fúnebre que conduziu o corpo de Jacques para o cemitério que fica depois da marina. O Barão Jaques D’Adelsward devotou sua vida à liberdade, à beleza e ao prazer.
Em sua villa, ele fez gravar em mármore branco uma placa em honra do “amor adolescente” com os dizeres, “Amori e dolori sacrum”. Ele compreendeu o encanto de um rosto jovem, o verdadeiro valor de um olhar benevolente e a doçura da inocência. Ele perseguiu o sonho de D’Annunzio de viver uma vida inimitável. Ele tentou isso na moderna Capri do século 19, contudo nunca o conseguiu, pois não foi capaz de parar o tempo.
Minha amiga me chama. Minha mente ainda viaja pelo século enquanto meus olhos repousam nesta visão de tirar o fôlego de um mar verde esmeralda. Com seu charme imponente e inexaurível, estou enfeitiçada por sua grandeza e sensação de prazer. A fonte de minha inspiração é a sua imagem de conto de fadas da pureza essencial…
Minha alma repousa.
“Já vou…já vou…qual é a pasta para o almoço de hoje no Luigis?”
Escolhas da Joelle:
O Livro: À la jeunesse d’amour - Villa Lysis a Capri: 1905-2005 #221 - AA.VV.
A Loja: Libreria delle Edizioni la Conchiglia /Via Le Botteghe, 12 - 80073 CAPRI (NA) - tel. +39 081 837 6577 - fax +39 081 837 9989
O Lugar: Villa Lysis / Guided tours 80073 Capri (Napoli)
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